Fechar X
   
HOME
   
  CURSOS
   
  WORKSHOPS
   
  MESAS REDONDAS
   
  PALESTRAS
   
  SUPERVISÃO
   
   GRUPOS DE ESTUDO
   
  CORPO DOCENTE
   
  AGENDA
   
  CONTATO
   
PSICOTERAPIA >>>
   
  ATENDIMENTO
   
  GRUPOS TERAPÊUTICOS
   
   HOME CARE
   
   SERVIÇO DE ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL >>
   
  ATENDIMENTO
   
  CONVÊNIO
   
  ASSESSORIA
   
  EQUIPE TÉCNICA
   
  LINKS
   
   PUBLICAÇÕES >>
   
ARTIGOS
LIVROS
REVISTAS
   
   FALE CONOSCO >>
   
 
Entre em contato conosco por email clicando aqui.

Ou se preferir acesse nosso formulário de contato na página Fale Conosco.

SURPRESAS COM HUMOR


Sobre Orientação Vocacional:                           

                                                                                   
Se você é estudante   
                           

Pai ou mãe de estudante

Amigo ou parente de um estudante

Leia o que aí vem! 

Orientação Vocacional


PENSANDO A FAMÍLIA NO PROCESSO DE ESCOLHA PROFISSIONAL

MARIA LUIZA DIAS

Neste artigo analiso aspectos da psicodinâmica do grupo familiar implicados num momento de escolha profissional e focalizo a importância da participação da família no processo de Orientação Profissional de um jovem.
Faço algumas considerações iniciais sobre como concebo o trabalho de Orientação Vocacional na atualidade e depois refiro-me à linha de orientação de trabalho que adoto, salientando a importância de se considerarem os aspectos psicodinâmicos de uma escolha. Defendo a posição de que a orientação profissional deve voltar-se às fantasias e desejos presentes no indivíduo, à sua operacionalidade e implicações em relação ao projeto futuro.
O processo de socialização na família (ou figuras significativas) é apresentado como o universo que oferece as imagens iniciais que colaborarão para a formação das preferências ocupacionais de um jovem. Dito de outro modo, entendo que a forma como os pais dão significado aos elementos da vida ocupacional estará presente no universo de representação do filho. O papel do orientador profissional é, juntamente com o orientando, o de focalizar a rede de significação com a qual ele opera, para que se perceba aspectos subjacentes ao processo de se realizar escolhas e não escolhas, como também possíveis conflitos e ansiedades ocultos em suas preferências e rejeições.
Após levantar alguns processos freqüentes no universo da família envolvida na escolha profissional de um de seus membros, termino com a apresentação do atendimento de um estudante, que no texto chamei de Claudio.
Esta apresentação contribui para enfatizar como os processos afetivos vividos no universo da família podem condicionar o tipo de escolha profissional realizado por um de seus elementos. Neste caso, destaco o processo através do qual uma escolha profissional pode configurar-se como um sintoma produzido no grupo familiar, expresso nas dúvidas e certezas do membro que está diante da escolha – geralmente o filho.


ORIENTAÇÃO VOCACIONAL

PENSANDO A FAMÍLIA NO PROCESSO DE ESCOLHA PROFISSIONAL

MARIA LUIZA DIAS*


ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL HOJE – CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O modo como se compreende uma Orientação Vocacional pode ser diverso. Várias visões, hoje, são possíveis. Creio ser oportuno lembrar, no entanto, algumas tendências iniciais desta especialidade, para depois introduzir a maneira como concebo esta atividade, discutindo os aspectos psicodinâmicos da escolha profissional e o valor da participação da família na orientação, vista como um processo de facilitação da escolha no campo ocupacional. Penso que, no passado, num primeiro momento, a Pedagogia teria confundido a Orientação Vocacional com Informação Profissional. A Psicologia, por sua vez, teria contribuído para uma visão reducionista da Orientação Vocacional, confundindo-a com uma bateria de testes, herança esta que se põe presente hoje, uma vez que muitas famílias procuram os serviços de orientadores profissionais com a demanda por um teste vocacional e não por uma orientação. Se de um lado, no modelo educacional, o orientador pode funcionar tal como um banco de dados de um computador, no segundo caso, o psicólogo é concebido como aquele especialista que se põe a ajustar “parafusos e porcas” (pessoas e profissões) de mesmo tamanho – analogia esta feita por Bohoslavsky. Ao “fotografar” pessoas e indicar profissões compatíveis com o perfil do indivíduo, o orientador que restringe seu trabalho à bateria de testes estaria desconsiderando inúmeros outros aspectos que estão implicados na experiência da escolha. Ainda nos dias atuais, é freqüente que estudantes que procuram Orientação Vocacional no consultório já tenham passado, recentemente, por este tipo de trabalho mais tradicional em suas escolas.
Cabe apontar que o próprio termo orientar é por si só, também problemático. No dicionário, quer dizer “encaminhar, guiar, indicar o rumo a”. Como se, de fato, fosse possível levar uma solução ao orientando, como se leva um cafezinho na bandeja. Como foi dito, muitas pessoas ainda buscam o processo de Orientação Vocacional do seguinte modo: “Vocês fazem teste vocacional?”. Ou ainda durante o processo: “Quando vamos ter a próxima aula?”. Isto denuncia como esta visão inicial ainda sobrevive na forma como as pessoas concebem este tipo de trabalho. Outro problema terminológico envolve a palavra “Vocacional”. Eventualmente, pode ser interessante utilizar a expressão Orientação Profissional, e não Orientação Vocacional, uma vez que o conceito de vocação carrega sempre a idéia de que existe um dom com o qual nascemos, ou um atributo que constituímos, mas do qual não podemos nos evadir. Ao contrário, acredito que nossos interesses são fruto da nossa relação psicodinâmica com as experiências que temos no mundo e que, por isso, poderemos desenvolver habilidades que no momento não possuímos. Pode-se constatar que uma visão biológica foi sendo substituída, portanto, por uma visão de natureza cultural e psicológica.
Com as novas teorias que surgiram, sobretudo com as obras de Bohoslavsky e Pelletier, outras perspectivas nasceram. A compreensão da Orientação Profissional transformou-se: indivíduo e sociedade são agora vistos em constante transformação, de forma que o sujeito em orientação passou a ser focalizado dentro de um continuum de desenvolvimento, e o vínculo que o orientando estabelece com o mundo educacional e ocupacional passou a ser observado dentro de um conjunto de relações mais amplas. Estas novas tendências ampliaram o universo da escolha profissional para além da busca de informações e do ajuste ao dom. O indivíduo é agora concebido como incluso num conjunto sistêmico, onde variados aspectos mantêm-se inter-relacionados: indivíduo x desenvolvimento intrapsíquico x realidade e imaginário familiar x inserção de classe.
Nesta linha, acredito que o principal papel do orientador profissional é, através da interpretação do discurso e de outros recursos técnicos, auxiliar o orientando a perceber a rede de significações com as quais opera, e a compreender a construção que se encontra subjacente às suas escolhas e não-escolhas, como também os possíveis conflitos e ansiedades ocultos em suas preferências ou rejeições. Assim, o orientador se transforma num coadjuvante, num facilitador ou co-construtor desta estrutura simbólica, à qual a escolha se referencia, onde o papel principal é do orientando. Nesta mesma linha, o orientador propicia experiências e identifica elementos que convidam o orientando a refletir sobre seu percurso em direção a um futuro.
Entendo que esta é a principal e original contribuição a ser dada, uma vez que o orientando geralmente é capaz de, por si só, fazer o resto, como, por exemplo, observar e investigar a realidade ocupacional, informar-se e obter uma boa visão sobre seus interesses e aptidões. Afinal, a maioria dos estudantes vem para a Orientação Profissional já com uma noção sobre aquilo que prefere ou não fazer, sobre as áreas nas quais obtém um melhor ou pior desempenho, como fruto da auto-observação de suas vivências. Os testes podem acabar apenas confirmando estes aspectos que, em geral, não estão fora do alcance do indivíduo. Por isso, creio que um trabalho alicerçado somente em testagem acaba por ser descritivo e não oferece em si a oportunidade para o estudante ampliar verdadeiramente o conhecimento de si mesmo. Um teste de inteligência, por exemplo, ainda certas vezes valorizado pelos pais, parece-me extremamente desnecessário, uma vez que o estudante que procura a Orientação Profissional já chegou a um certo nível de escolaridade, não tendo, portanto, limitações de ordem intelectual. Se tivesse restrições desta ordem, elas teriam se apresentado muito antes, provavelmente, já no período de alfabetização. Saber se o QI é 90 ou 100, em um grupo de adolescentes, poderia servir apenas para promover comparação ou disputa entre os jovens e, mesmo, falsas impressões: um estudante com QI elevado não tem garantia de que será bem sucedido nas provas seletivas do vestibular, pois nelas se verifica predominantemente o nível de conhecimento em relação a conteúdos específicos, que para serem assimilados, dependem também da dedicação e das horas de estudo a que o estudante se submeteu.
Apesar disso, ainda existem escolas e consultórios que trabalham exclusivamente com este modelo psicométrico, no qual o estudante recebe um laudo final, indicando-lhe duas ou três carreiras que poderia vir a seguir. Muitas vezes, ainda, acompanha esta sugestão ocupacional, um resultado de avaliação de aptidão e/ou de personalidade, com termos técnicos, que, por vezes, o estudante ou não concorda, ou não compreende que significado tudo aquilo possa ter para sua vida. Desperdiça-se, assim, uma oportunidade de construir com o estudante uma visão mais ampliada sobre suas escolhas, não-escolhas, sobre seu modo de operar no mundo, sobre recursos e limites e o modo como se vincula com seu futuro.
O momento da escolha profissional é, de fato, um momento importante, pois embora sempre se possa alterar o rumo depois, aquilo que o indivíduo escolher irá se refletir na continuidade de sua vida, em sua totalidade. Por exemplo, a maneira como a secretária executiva caminha dentro da empresa, os severos controles de peso a que se submete o jogador de futebol (e também outros esportistas) ou a modelo, não se restringirão ao ambiente do saguão da empresa, do jogo ou do desfile. Deste modo, o programa de Orientação Profissional torna-se um espaço importante de reflexão, pela amplitude e extensão que um direcionamento para uma carreira pode assumir na vida de um indivíduo.
Rejeitando estas concepções anteriores sobre Orientação Profissional (o modelo exclusivamente informativo ou psicométrico), dou preferência, como vimos, a trabalhar com o conjunto de representações mentais com o qual o estudante concebe o seu eu e o mundo ao seu redor – ou seja, com sua própria visão de mundo –, ajudando-o a re-significar esta sua realidade e a planejar uma estratégia para o futuro, no que concerne aos aspectos educacionais e ocupacionais.
Nesta forma de ver, a Orientação Profissional também não obedece a um limite de idade. Seja um adolescente ou um aposentado, uma dona-de-casa que resolve trabalhar fora ou um recém-formado, ou mesmo um desempregado que deseja mudar de área e obter nova colocação no mercado, qualquer indivíduo pode usufruir deste trabalho, desde que tenha uma questão ocupacional a pensar.
Atrás de uma escolha profissional encontra-se, com isso, toda uma dinâmica sócio-organo-psicológica que envolve a relação que o indivíduo estabelece com seu passado-presente-futuro, em seus aspectos aparentes e latentes. Nesta perspectiva, o que se escolhe e o que se considera ou não ao escolher constitui o eixo da temática a ser focada na Orientação Profissional.
Penso, então, que a Orientação Profissional deve voltar-se a este referencial: às fantasias e desejos presentes no sujeito, à sua operacionalidade, às suas implicações na continuidade de sua vida, universo esse permeado a todo tempo pela visão de mundo constituída dentro das relações familiares e com outras figuras significativas presentes no processo de socialização de uma pessoa.


PSICODINÂMICA DA FAMÍLIA E ESCOLHA PROFISSIONAL

A família sempre teve um importante papel por sua função socializadora. Portanto, devemos considerar que a forma como os pais dão significado aos elementos da vida ocupacional sempre estará incluída no universo de representações do filho.
Os pais, em geral, têm opiniões sobre o que seria mais ou menos desejável para seu filho e também uma certa visão sobre o que ele poderia fazer bem. Mesmo aquele que diz “o importante é ele ser feliz” possui uma visão mais precisa sobre o que seria melhor o filho fazer, ainda que subentendida nesse conceito de felicidade. Penso ser importante que tais fantasias se explicitem, pois estarão em jogo de qualquer modo. Os pais preocupam-se com um futuro bem-sucedido e com um trabalho adequadamente remunerado para seu filho. São unânimes em afirmar que é preciso ter um bom salário e um bom encaixe no mercado de trabalho. Desemprego e salários muito baixos surgem como grandes fantasmas.
São mais esporádicas as situações nas quais os pais aberta e conscientemente expõem ou impõem o próprio desejo de destino em relação a seu filho. Recordo-me de duas situações bem recentes. Na primeira, recebi o telefonema de uma profissional da área de Recursos Humanos de uma empresa situada em outro estado, da qual o pai da jovem era diretor, pedindo informações, para ele, sobre o processo de orientação profissional. Segundo a profissional, este pai se dispunha a trazer sua filha à orientação comigo, desde que não fosse abalada a decisão atual da jovem. Após descrever algumas características de personalidade da adolescente, a pessoa argumentou que a estudante havia optado por inscrever-se em um curso de Design de Produto, informando ainda que a família ficou muito contente e que o pai desejava que a estudante passasse pelo processo de orientação, mas que receavam que esta opção pudesse ser mudada. Não gostariam de correr este risco, mas vemos que, paradoxalmente, desejavam que ela passasse pelo processo. Ora, como uma Orientação Profissional pode transcorrer leal a este compromisso? O orientador vocacional iniciaria um trabalho sem voz. E a adolescente? Teria sua voz ouvida por esta família? Podemos observar que estes pais fariam todo o esforço pelo desenvolvimento da filha, oferecendo-lhe a orientação, conduzindo-a ao que entendiam como um ótimo serviço, mesmo que para isso tivessem que atravessar estados, desde que a sua opção não recebesse novo formato. Estava proibido pensar, dentro de um trabalho no qual o objetivo principal é conhecer-se, posicionar-se. Na segunda situação, apresentou-se um rapaz jovem, auxiliar de enfermagem, cuja mãe abertamente expressava seu desejo de que ele viesse a ser médico. Às voltas com as limitações financeiras, as quais a mãe também não tinha recursos para contornar, e também com dúvidas vocacionais, cansou de planejar-se para esta empreitada. No processo de orientação profissional, interessou-se fortemente pela psicologia e ciências sociais, em uma busca de, quem sabe sintomaticamente, entender pessoas.
Penso ser importante considerar o fato de que muitos pais ainda operam com as representações tradicionais sobre o que seria uma carreira prestigiada e demonstram aberta ou sub-repticiamente suas rejeições por carreiras que, supostamente, remuneram mal. E, usualmente, ainda consideram as profissões clássicas como as mais promissoras: Engenharia, Medicina e Direito, dentre outras. Talvez a mãe do auxiliar de enfermagem estivesse, na verdade, desejando-lhe uma carreira bem remunerada e de prestígio.
Os tempos mudaram algumas coisas. O médico de hoje, por exemplo, raramente ainda é aquele médico da família, que vinha em casa e que, estudioso, desfrutava de largo prestígio. A proliferação dos convênios médicos, a constante especialização do trabalho após a industrialização, o arrocho salarial e o desemprego (que tanto contribui para pressionar para baixo o salário dos que conseguem emprego) puseram muitos médicos a acumularem empregos e plantões noturnos, o que, mesmo assim, não garante a renda necessária para comprar uma casa própria, por exemplo.
Alguns pais não se apercebem, então, que, no mundo atual, é possível tomar um suco na casa de sucos de um engenheiro, receber cachorro-quente ou pipoca das mãos de um advogado ou um talão de zona azul de uma psicóloga. Apesar de, na maioria das vezes, trabalharem com critérios como: “ganhar muito dinheiro” e “profissão de prestígio”, esquecem-se de adequar estas representações ao mercado atual. Não se dão conta, portanto, de que o mundo ocupacional não pode ser rigidamente dividido entre as profissões que dão dinheiro e as que não dão. Atualmente, boas e más colocações distribuem-se pelas diversas áreas de trabalho.
Deste modo, algumas concepções dominantes povoam uma certa visão sobre as profissões. Se um jovem interessa-se por Música, freqüentemente isto pode ser visto como uma motivação de adolescente, que só pensa em rock, e não como um verdadeiro interesse pela área, que pode ser canalizado para diversas ocupações como: montar uma escola de música, lecionar, tocar no saguão VIP do aeroporto, etc. Recentemente, perguntei para uma jovem: “Se você contar para sua mãe que está indo visitar uma escola de música e uma rádio, qual dos espaços você acredita que ela gostaria mais de saber que você está pesquisando?”. Respondeu-me: “Na rádio, claro!”. Em geral, o mesmo ocorre com o jovem que se interessa por teatro ou pela carreira de modelo. Pode ocorrer que os pais demonstrem uma certa preocupação com a homossexualidade, no caso do rapaz, ou com adesão às drogas, e dificilmente imaginam que seu filho poderá se sentir realizado nestas profissões. Assim, os pais expressam nitidamente preconceitos e visões estereotipadas sobre a realidade ocupacional e podem ainda estar operando com desinformação ou imagens distorcidas de determinadas realidades.
Observa-se, com isso, que a Orientação Profissional, ao focalizar a vida ocupacional de um indivíduo, estará se inserindo no universo de representações do orientando e de seu grupo familiar sobre o mundo do trabalho e, dentro disso, também em sua visão mais geral de mundo – em seu modo de dar sentido à vida.
A escolha profissional pode, ainda, estar enlaçada em conflitos e no modo de operar do grupo familiar como um todo. O estudante mantém-se, por isso, aprisionado a um tipo de escolha na qual ele está mais tentando solucionar conflitos afetivos vividos com os membros da família do que se identificando com o cotidiano do profissional que está escolhendo ser. A opção por uma visão clínica do processo de escolha ocupacional, portanto, revela-se desejável, auxiliando a compreensão das motivações inconscientes determinantes de uma escolha. A noção de reparação importada da psicanálise kleiniana por Bohoslavsky, na sua aplicação para a compreensão dos fatores inconscientes determinantes de uma escolha profissional, expõe estes elos entre escolha, desejo e conflito.
Assim, não é possível recortar uma visão sobre o orientando de forma descontextualizada e faz-se necessário compreender suas ansiedades em referência ao grupo social (família, amigos, escola, etc.). Muitas vezes a participação da família em entrevistas de Orientação Profissional pode ser de enorme auxílio na focalização de determinados aspectos conflitivos, vinculados à escolha ocupacional do jovem. Quando não é possível incluir os pais na entrevista (porque moram em outra cidade ou estado; simplesmente preferem não vir; trata-se de um trabalho em escola e não é possível trazer todos os pais para entrevista) pode-se introduzir no programa de orientação profissional, atividades que colham as imagens da família sobre o estudante e o mundo ocupacional.** Vejamos um exemplo.


UM CONTEXTO FAMILIAR

Pensemos a situação de um rapaz que chamarei de Claudio. Tem 21 anos, é filho único e, no momento, não sabe o que fazer. Formou-se no 2o Grau, já trabalhou com a mãe na loja de cama e mesa de seus pais, mas acredita que seu sonho é ser um modelo fotográfico bem sucedido e trabalhar com moda. Interessa-se também por teatro. Já fez uma tentativa de atuação nestas duas áreas, mas quando lhe apareceram melhores oportunidades, não conseguiu dar continuidade. Na carreira de modelo, por exemplo, havia feito alguns “bicos”, mas quando uma agência grande quis contratá-lo, Claudio não conseguiu levar à empresa o material solicitado – um book com fotos.
Claudio gostou de trabalhar com a mãe, mas desfere-lhe severas críticas: “Eu sou mais inteligente que ela, só que ela conseguiu subir!” (ter dinheiro). “As amigas dela são meio... uma outra cabeça” (conservadoras/ tradicionais). “Um pessoal com pouca cultura, que tem esse pensamento assim: filho de peixe tem que trabalhar com a mãe, do mesmo modo; você não tem que fazer nada, tem que ficar aí vendendo lençóis e ganhando seu dinheiro”. Segundo ele, o pai lhe diz: “Você só gosta do que não dá dinheiro!” (teatro e moda). E ele acrescenta: “É porcaria, quem vai pagar? Nunca vou chegar lá! O que eu tenho medo é que meus pais pensem que eu sou um idiota, um filhinho de papai, por querer ser ator, modelo, algo assim”.
Claudio, às vezes, gostaria de fazer Faculdade, já pensou em fazer o curso de Nutrição. Porém, não consegue estudar e não se vê numa classe com tantos outros colegas. Diz: “Faculdade vai ser difícil eu entrar, eu não gosto de povo, de gente; já pensou vir aquela gente dar trote? Eu vou fazer inimizade. Que nem cursinho, eu não gosto, eu não gosto!”. Outra dificuldade de Claudio é que ele não consegue decorar um texto de uma peça teatral. No entanto, é bom de improviso e tem boa impostação de voz. Sobre seu desempenho, avalia: “Não quero mais fazer isso, porque eles são muito bons e eu sou porcaria, aí eu começo a invejar...”
Sobre a infância, Claudio conta que sempre teve um sentimento de inferioridade, sentia-se pequeno, queria ser mais alto. Diz: “Na escola eu sempre fui miudinho, baixinho, miudinho, e tinha medo dos outros colegas. Sempre no comecinho eu era chamado de mijão porque fazia xixi na escola. Depois, na adolescência, também foi ruim. Com cinco anos fazia cocô nas calças. Quando eu tinha quatro anos, já tinha medo dos meninos altos e dos caras grandões!”. Em seguida, sobre a carreira de modelo, diz: “E ainda para suprir mais essa coisa, eu quero ser modelo; se der, ainda, na televisão. Fico imaginando que eu poderia ser mais alto, mais forte. Depois aumentei meu peso. Não, não tá legal, voltei a 55 kgs, não, não tá legal!”.
Claudio só anda com pessoas mais velhas que concluíram o 3o Grau, segundo informou. Quer namorar uma garota linda, mas não consegue. Diz: “Se é bonita fico com uma certa inveja. Fico perto porque penso: ah, ela é mais bonita!”. Deste modo, os relacionamentos com garotas não passam do primeiro encontro.
Perguntei a Claudio por que pensava nestas três profissões: quer ser modelo, trabalhar com teatro e ser nutricionista. Vejamos seus argumentos sobre o porquê de desejar tais cursos:

Nutrição: “Para cuidar da minha dieta. Eu adoro a academia. Acho que penso em dieta para mim porque eu quero dominar essa parte da alimentação e suplementação que seriam as vitaminas. Cuidar da minha imagem. Eu quero atingir uma perfeição. Eu tive essa impressão ontem, esses dias, porque vinha na minha mente isso – e eu tentava deixar – porque gosto de vitamina, de moda, sucos...”
Modelo: “Bom, isso já é antigo, acho que desde que eu tinha 18 anos, quando eu não tinha requisitos. Hoje eu até tenho, mas eu me odeio! Tenho um pouco: corpo legal, cara que engana. Eu quero porque... Puxa! Eu me sentiria tão bem! Nem que seja por dois anos. Eu quero compensar essa falta de auto-estima que eu tenho. Vou curtir mais meu corpo, minha saúde, vou parar de fumar. Outro motivo também: porque eu adoro comprar roupa, adoro roupa bonita da moda, e modelo não precisa comprar todas as roupas. Ele vai desfilar com a roupa que não é dele, mas vai estar sempre andando com roupa. Quero um pouco de fama, ser reconhecido, mas não para ficar assim... simples. Quanto mais fama, mais eu vou me isolando. Igual um modelo que eu conheço – eu não o conheço pessoalmente, eu o vi uma ou duas vezes, mas acho que eu a invejo. Eu o vejo, deve ter uns 40 e poucos anos, começou a fazer fotos, teve uma carreira bem sucedida, comercial de TV, morou em Paris, Japão, não é tão bonito”.
Teatro: “É relacionado a modelo. Eu aprecio atores de TV e de teatro pelo desembaraço, impostação de voz, maneira de ser, espontânea, alegre e o principal: ter fama. Você faz um espetáculo e todo mundo bate palma. Fiz um curso e comecei a gostar”.
O trabalho em Orientação Profissional incluiu dez encontros. Na primeira sessão, Claudio veio com seus pais e mostrava-se constrangido. Tão logo pôde ter seu espaço individual, mostrou-se bem falante e expressivo. Entremeamos algumas tarefas com muito diálogo.
Como neste momento não há espaço para mencionar todas as atividades realizadas e os ricos dados que foram surgindo no teor de seu discurso, a título de ilustração selecionei, para aqui expor, apenas a história contada sobre o desenho da família (que lhe foi pedido numa seqüência de desenhos). Diz Claudio: “Bom, o nome desta família é 'Éramos Três'. A família vivia reclamando. Um reclama do outro, o outro reclama para o outro, do pai para a mãe, da mãe para a filha, da filha para o pai. Aí o pai e a mãe gostavam de ajudar o filho com a mão direita e tomar com a mão esquerda ao mesmo tempo, tanto é que o garoto perdeu até o braço! Aí o garoto foge, ele foge e... (ri) ele foge de casa”.
Durante todo o processo trabalhamos muito sobre os sentimentos de desvalia e inferioridade apresentados por Claudio e, também, sobre seu intenso desejo de “atingir uma perfeição” – o que buscava através das opções de carreira imaginadas. Demos continuidade a este trabalho, estendendo-o com algumas sessões de família, onde trabalhamos o aspecto exigente e perfeccionista existente neste grupo de três, como também questões relacionadas à auto-imagem de Claudio. Freqüentemente, havia uma tentativa, por parte dos pais, no sentido de “embelezar” a realidade familiar. Conversamos sobre porque era necessária uma imagem de “perfeição” nesta família. Enquanto tais aspectos não foram digeridos, Claudio não esteve liberado para escolher entre as carreiras, porque as confundia com essa prática familiar cotidiana da busca da perfeição. Tentava, a todo momento, em seus argumentos, reparar sentimentos de falta, de incompletude, de desvalia, que pareciam promover largo desconforto em todo o grupo familiar. Desejava ser perfeito, na profissão perfeita, em uma família que parecia aspirar à perfeição, negando aspectos vividos como indesejáveis. Observou-se, com isso, uma homologia estrutural no modo como o jovem concebia o mundo ao seu redor e a si mesmo, perpetuando o modelo exigente da atmosfera familiar.
Através deste exemplo de Claudia, vimos como o imaginário familiar oferece elementos que permanecem presentes e que se expressarão no modo de o jovem operar diante do momento de escolha profissional.


CONCLUINDO

Pode-se observar como um indivíduo, quando procura escolher uma profissão, está às voltas com as visões e as pressões da família. Esta “cultura” do grupo familiar estará ativa e será internalizada pelo sujeito. Em alguns momentos, a escolha profissional, influenciada pelos dilemas familiares, poderá, mesmo, transformar-se em sintoma de grupo – expressão de ansiedades e conflitos compartilhados. A inclusão dos pais (e/ou outros membros da família) em entrevistas com o estudante ou de atividades que promovam o pensar sobre este universo, podem auxiliar o enfoque destes processos na Orientação Profissional de um jovem.


BIBLIOGRAFIA


BOHOSLAVSKY, Rodolfo. Orientação Vocacional – a estratégia clínica. SP: Livr. Martins Fontes, 1977.
DIAS, Maria Luiza. O que é Psicoterapia de Família? SP: Ed. Brasiliense, 1990.
_____, Vivendo em Família – relações de afeto e conflito. SP: Ed. Moderna, 1992.
_____, Família e Escolha Profissional. In: A Escolha Profissional em Questão. SP: Casa do Psicólogo, 1995.
_____, Profissão – no rumo da vida. SP: Ed. Ática, 2002.
PELLETIER, Denis et ali. Desenvolvimento Vocacional e Crescimento Pessoal. Petrópolis: Ed. Vozes, 1982.

@ Todos os direitos reservados para www.lacospiscicologia.com.br
Design e hospedagem: www.studiomax.com.br